Ludwig von Mises: História e Legado

“A humanidade precisa, antes de tudo, se libertar da submissão a slogans absurdos e voltar a confiar na sensatez da razão.”

Ludwig von Mises

INTRODUÇÃO

O presente ensaio tem como principal objetivo descrever de forma resumida a biografia de um dos maiores nomes da Ciência Econômica, o professor Ludwig von Mises. Para realizar tal ensaio, me dediquei em resumir ao máximo uma vida inteira dedicada às ciências, pois para falar do professor Mises, é preciso um livro (talvez mais), tamanha foi sua contribuição  à Ciência Econômica, o legado que  deixou e também as dificuldades que enfrentou.   

QUEM FOI MISES

Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881-1973) foi um importante economista austríaco que nasceu no dia 29 de setembro de 1881, na cidade de Lemberg, à época situada no interior do Império Austro-húngaro.

A família de Mises era formada por homens de grande reconhecimento. Seu pai, Arthur Edler von Mises, foi um reconhecido engenheiro especializado na construção de estradas de ferro. Seu irmão mais novo, Richard Von Mises (1883-1953), foi um dos matemáticos mais importantes do século XX. A situação financeira de sua família era confortável, o que lhe permitiu ter uma boa educação. Aos 12 anos de idade, Mises já era fluente em diversos idiomas, como por exemplo, alemão, polonês e francês. Mises também conseguia ler em latim e entendia o ucraniano.

UNIVERSIDADE DE VIENA

Mises diz ter começado a se interessar por economia após ler a obra mais famosa de Carl Menger (1840-1921) – Princípios de economia política (1871) –, no Natal de 1903. Era estudante da Universidade de Viena, que na época era considerada uma das melhores universidades do mundo, comparável a Oxford e Cambridge. Tornou-se doutor em direito em 1906 e assistiu aos seminários de economia de Eugen Böhm Ritter von Bawerk (1851-1914) durante muito tempo. Outro importante economista presente nos seminários de Bawerk foi Joseph Schumpeter (1883-1950), que é considerado por muitos um dos economistas mais importantes da história. Inclusive é interessante ressaltar que, mesmo os dois tendo o mesmo professor, Mises e Schumpeter tinham diversas discordâncias em vários temas relacionados a economia.

No ano de 1906 Mises começou sua atividade docente ensinando Economia na Escola feminina de estudos comerciais de Viena. Em 1913, e durante vinte anos, foi professor da Universidade de Viena.

PRIVATSEMINAR

Ludwig von Mises se tornou chefe do Departamento de Economia e secretário-geral da Câmara de Comércio de Viena. Em seu gabinete organizou um famoso seminário de economia conhecido como Privatseminar, que contou com grandes economistas convidados, como por exemplo, o futuro Nobel em economia, F.A. Hayek (1899-1992); o economista Fritz Machlup (1902-1983), que diversas vezes foi pleiteado ao Nobel; o professor Oskar Morgenstern (1902-1977), considerado um dos fundadores da teoria dos jogos; e o economista britânico responsável por uma das definições clássicas de economia, Lord Lionel Robbins (1898- 1984); entre muitos outros renomados pensadores, já que o mesmo não era frequentado apenas por economistas. Um exemplo é o matemático Karl Menger (filho de Carl Menger), que também esteve presente nos seminários.

DEIXANDO A ÁUSTRIA

Mises permaneceu na Universidade de Viena como professor até fugir da Áustria devido às tensões que ocorriam na região com a ascensão do Nazismo. Mises era malvisto por eles, principalmente por ter uma visão liberal de mundo, visão que era oposta a visão coletivista e autoritária dos Nazistas. Inicialmente Mises se mudou para Genebra, Suíça, onde passou a lecionar no Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais. Posteriormente migrou para os Estados Unidos da América, onde adquiriu cidadania e deu aula por décadas na New York University.


Nos Estados Unidos Mises retomou seus seminários, entre os anos de 1948 até a primavera de 1969. Entre os numerosos participantes ilustres destes seminários, podemos citar Murray Rothbard “fundador do Anarcocapitalismo” (1926-1995) e Israel M. Kirzner (1930-) que teve diversas contribuições para a moderna Escola Austríaca de Economia, em especial para temas como empreendedorismo e processo de mercado. A relevância de Kirzner é tanta que, mesmo não pertencendo ao que convencionamos chamar de mainstream, foi pleiteado para o Nobel em 2014.

HONRAS

“Ludwig von Mises foi nomeado doutor honoris causa pela Universidade de Nova Iorque e, por iniciativa de F. A. Hayek, pela Universidade de Friburgo (Alemanha); foi igualmente distinguido em 1962 com a medalha de honra das ciências e das artes da República de Áustria, e nomeado Distinguished Fellow da American Economic Association em 1969.” (DE SOTO, 2010, p. 92)

OBRAS

Publicou dezenas de livros e centenas de artigos ao longo de sua carreira. Entre suas obras podemos destacar: Theorie des Geldes und der Umlaufsmittel (A Teoria da Moeda e do Crédito), tratado que ele publicou em 1912, com apenas 30 anos; sua obra crítica ao socialismo, intitulada Die Gemeinwirtschaft: Untersuchungen über den Sozialismus (Socialismo – Uma análise econômica e sociológica); o livro, Theory and History: An Interpretation of Social and Economic Evolution (Teoria e História: Uma Interpretação da Evolução Social e Econômica); e sua obra mais importante, um tratado de economia com aproximadamente 1000 páginas, chamado Human Action (Ação Humana), publicado em 1949.

Seu aluno mais famoso, F.A. Hayek, comentou sobre a importância da obra Theorie des Geldes und der Umlaufsmittel (traduzido para o inglês como “Theory of Money and Credit”) para a economia:

“A Theory of Money é muito mais do que meramente uma teoria do dinheiro. Embora seu principal objetivo fosse preencher o que era então a lacuna mais evidente no corpo da teoria econômica aceita, também fez sua contribuição para os problemas básicos de valor e preço. Se seu efeito tivesse sido mais rápido, poderia ter impedido grande sofrimento e destruição.” (HAYEK, 2021, p. 127)

O mesmo Hayek falou sobre a importância da obra Die Gemeinwirtschaft: Untersuchungen über den Sozialismus (Socialism) para que muitos pensadores deixassem de ser socialistas:

“A primeira edição de Socialism, em 1922, teve um impacto profundo. De maneira gradual, mais fundamental, ela alterou a perspectiva de muitos jovens idealistas que regressavam aos estudos universitários depois da [Primeira] Guerra Mundial. Eu sei, pois era um deles” (HAYEK, 2021, p. 132)

Outro aluno de Mises, o já citado Rothbard, comenta a importância e a qualidade da obra, Human Action

“Uma coisa era formular a metodologia apropriada para a ciência econômica, outra bem diversa, e muito mais difícil, era erguer efetivamente a economia, todo o corpo da análise econômica, sobre esta base, usando tal método. Normalmente se consideraria impossível que um só homem pudesse levar a cabo as duas empreitadas: formular a metodologia e em seguida elaborar todo o sistema completo da economia sobre estes fundamentos. Mesmo considerando a longa série de obras e realizações de Mises, não se poderia esperar que ele próprio realizasse essa tarefa árdua e extremamente difícil. E, não obstante, Ludwig von Mises, isolado e sozinho, abandonado por praticamente todos os seus seguidores, exilado, em Genebra, da Áustria fascista, em meio a um mundo e a um meio profissional que tinham desprezado todos os seus ideais, métodos e princípios, realizou-a. Em 1940, publicou sua monumental e suprema realização, Nationalokonomie, obra que, no entanto; foi imediatamente esquecida em meio às preocupações de uma Europa dilacerada pela guerra. Em parte, a Nationalokonomie foi ampliada e traduzida para o inglês em 1949 sob o título Human Action (Ação Humana). A elaboração de Human Action constitui, por si mesma, uma façanha notável. O fato de Mises ter conseguido levá-la a cabo em circunstâncias tão drasticamente adversas converte essa obra no que há de mais inspirador e tocante.” (ROTHBARD, 2010, p. 37)

VISÃO ECONÔMICA

Algumas frases que a meu ver demonstram a visão econômica de Ludwig Von Mises são:

“A economia não trata de coisas ou de objetos materiais tangíveis; trata de homens, de suas apreciações e das ações que daí derivam.” (MISES, 2010, p. 125)

“O objetivo final da ação é sempre a satisfação de algum desejo do agente homem. Só age quem se considera em uma situação insatisfatória, e só reitera a ação quem não é capaz de suprimir o seu desconforto de uma vez por todas. O agente homem está ansioso para substituir uma situação menos satisfatória por outra mais satisfatória.” (MISES, 2010, p. 43)

“Na economia de mercado não há outro meio de adquirir e preservar a riqueza, a não ser fornecendo às massas o que elas querem, da maneira melhor e mais barata possível.” (MISES, 2010, p. 708)

RECONHECIMENTO

Mises é reconhecido por diversos renomados economistas, e até mesmo por Nobels em economia, como um dos mais importantes economistas do século 20:

Seu aluno Murray Rothbard escreveu um livro em homenagem ao mestre, intitulado “O Essencial de von Mises”. Na introdução dessa obra Rothbard escreve o seguinte:

“Não é exagero dizer que o mundo só se libertará de seu miasma de estatismo e que, na verdade, os economistas só retornarão a um sólido e correto desenvolvimento da análise econômica no dia em que, deixando o atoleiro em que hoje se encontram, alcançarem o elevado terreno que Mises preparou para nós.” (ROTHBARD, 2010, p. 9)

Fritz Machlup, que embora tivesse algumas discordâncias com o professor Mises, escreveu um artigo em sua homenagem chamado “Ludwig von Mises: A Scholar Who Would Not Compromise Ludwig von Mises”. No mesmo ele escreveu o seguinte:

 “A admiração por um grande homem e seu importante trabalho não pressupõe aceitação acrítica de todos os seus pontos de vistas. O fato de eu fazer uma exceção a alguns dos ensinamentos de Ludwig von Mises não me torna um apóstata. Ao contrário, isso deveria provar que o grande mestre produzira alunos com mentes abertas e críticas.” (MACHLUP, 2004) [Tradução Livre]

Em 1973, o Nobel em economia Milton Friedman (1912-2006) referiu-se a ele, pouco tempo depois da sua morte, como “um dos grandes economistas de todos os tempos”. (DE SOTO, 2010, p. 93)

Outro Prêmio Nobel da Economia, Maurice Allais (1911-2010), escreveu que Mises foi “um homem de uma excepcional inteligência cujas contribuições para a Ciência Econômica foram todas elas de primeira ordem”. (ALLAIS, 1989, p. 307)

Outro Nobel, James Buchanan (1919-2013), ao falar sobre Mises e a Escola Austríaca, afirma:

“Certamente possuo enorme afinidade com a Escola Austríaca e não tenho objeções em ser considerado um austríaco. Mises e Hayek me considerariam um austríaco, mas certamente outros não”.

“Eu penso que existem muitos e produtivos desenvolvimentos como a nova economia institucional, legislação e teoria econômica, direitos de propriedade, escolha pública, a nova teoria da história econômica e o renascimento da Escola Austríaca. Todas essas áreas são complementares e, de certo modo, podem ser vistas como um ataque à ortodoxia convencional”.  (BUCHANAN, 1987) [Tradução Livre]

Podemos também citar Vernon Smith (1927-), Nobel em economia (2002), que em 1999 escreveu um artigo sobre a Magnum opus de Mises, Human Action, artigo intitulado “REFLECTIONS ON HUMAN ACTION AFTER 50 YEARS”. Vernon L. Smith declarou:

“Eu li Mises pela primeira vez quando era sênior da CalTech, na graduação de engenharia elétrica. Essa foi uma das principais razões para eu subsequentemente migrar para economia. Lendo Mises depois de 50 anos, fico impressionado com o quão estimulante, relevante e nítido é a obra Ação Humana para o estudo da economia no final do segundo milênio. E a obra (Ação Humana) suportou bem, porque muitos de seus principais temas – direitos de propriedade, regras de responsabilidade, a eficácia dos mercados, a futilidade do intervencionismo, a primazia do indivíduo – se tornaram importantes elementos na teoria e gestão microeconômica. Além do mais, esses temas se tornaram importantes graças Mises, Hayek e outros pensadores secundários (Coase, Alchian, North, Buchanan, Tullock, Stigler e Vickrey só para citar alguns) e não por causa do mainstream econômico. Há muitos pontos em Mises para atualizar por conta das coisas que sabemos agora e não sabíamos há 50 anos. Mas a mensagem básica de Mises sobre como a economia funciona permanece tão boa atualmente quanto era no passado”. (SMITH, 1999, p. 196) [Tradução livre]

Podemos ainda citar Paul Samuelson (1915-2009), um economista que, mesmo com visões econômicas praticamente opostas a Mises, o reconheceu como um dos prováveis ganhadores do Nobel se este prêmio tivesse se iniciado antes de 1969.

Lionel Robbins, o já citado economista britânico, recorda Mises na sua autobiografia intelectual: “não compreendo como alguém que não esteja cego por preconceitos de tipo político e leia as contribuições de Mises para as ciências econômicas e, em particular, o seu magistral tratado de economia intitulado Ação Humana, não se aperceba de imediato da sua grande qualidade nem experiencie um estímulo intelectual da mais elevada ordem”. (ROBBINS, 1971 p. 108)

E para fechar, o mais notório aluno de Mises, F.A. Hayek, ao ser questionado sobre ele, disse:

“Não existe nenhuma pessoa que eu deva mais intelectualmente” (HAYEK, 1978, p. 17) [Tradução livre]

CONCLUSÃO

O objetivo deste ensaio é o de alguma forma, contribuir para que as pessoas conheçam um pouco mais sobre Ludwig von Mises, bem como possibilitar que possam enxergar o quão importante ele é para a História do pensamento econômico. A influência de Mises é vista até os dias de hoje, visto que existem diversos institutos com o seu nome, com destaque para o “The Ludwig von Mises Institute for Austrian Economics”, no Alabama, EUA, que é ainda um dos maiores Think thanks do mundo. As ideias de Mises continuam sendo seguidas por diversos estudiosos das ciências econômicas em nosso tempo.

REFERÊNCIAS:

ALIAIS, Maurice. (1989): L’Impot sur le capital et Ia reforme monétaire. Herrnann editeurs, Paris.

BUCHANAN, James (1987): Entrevista. Fonte: https://cdn.mises.org/aen9_1_1_1.pdf (acesso 01/10/2021)

DE SOTO, Jesús Huerta (2010): A Escola Austríaca: mercado e criatividade empresarial /Jesus Huerta de Soto. — São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil. Tradução: André Azevedo Alves

HAYEK, Friedrich A. (1978): New Studies in Philosophy, Politics, Economics and the History of Ideas. London: University of Chicago Press.

HAYEK, Friedrich A (2021): O Renascimento do Liberalismo: Princípios da Escola Austríaca e os ideais da liberdade econômica. Editado por Peter G. Klein; tradução de Carlos Szlak. São Paulo: Faro Editorial, 272 p.

MACHLUP, Fritz (2004): Ludwig von Mises: A Scholar Who Would Not Compromise: https://mises.org/library/ludwig-von-mises-scholar-who-would-not-compromise (acesso 01/10/2021)

MISES, Ludwig H. E. von (2010): Ação Humana / Ludwig von Mises. – São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil. Tradução: Donald Stewart Jr.

ROBBINS, Lionel (1971): Autobiography of an Economist. Macmillan, Londres.

ROTHBARD, Murray N. (2010): O Essencial von Mises / Murray N. Rothbard. – São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil. Tradução: Maria Luiza Borges

SMITH, Vernon L. (1999): Reflections on Human Action After 50 Years. Cato Journal, Vol. 19, No. 2 (Fall 1999). Cato Institute, Washington, DC. (p. 195-214).

Gabriel Almeida Braga

Gabriel Almeida Braga

Escritor, estudante de Ciências Econômicas, gosta principalmente de Microeconomia e da História do Pensamento Econômico (HPE), graduando em Administração de Empresas, cofundador da Apptime, fundador da iniciativa Economia para Iniciantes e editor-chefe do site Econotime.

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