Lei de Say: Conheça a verdadeira Lei dos Mercados

QUEM FOI

Jean Baptiste Say (1767-1832) foi um grande economista francês do final do século XVIII e início do século XIX. É conhecido principalmente por ter desenvolvido a Lei dos Mercados, que posteriormente ficou conhecida como a “Lei de Say”.

Jean Baptiste Say (1767-1832)

INFLUÊNCIAS

J.B. Say foi influenciado por diversos pensadores, mas sem dúvida o pensador que mais influenciou Say foi Adam Smith (1723-1790), fato que pode ser demonstrado pelas diversas vezes em que Smith é citado na obra de Say – Traité d’économie politique (1803) – e no periódico que Say editou – La Decade philosophique, litteraire et politique, cujos textos expunham as doutrinas de Adam Smith

Adam Smith (1723-1790)

A LEI DE SAY

Como dito anteriormente, a contribuição mais famosa do professor J. Say é a Lei dos Mercados, conhecida também como Lei de Say. Na obra Traité d’économie politique Say assim a define:

 “Um produto tão logo seja criado, nesse mesmo instante, forma um mercado para outros produtos adequado ao próprio valor. Quando o produtor finaliza a produção, fica ansioso para vendê-la imediatamente pois quer evitar que a mesma se deprecie em suas mãos. E não ficará menos ansioso para aplicar o dinheiro que ganhará com a venda, pois o valor do dinheiro também poderá se depreciar. Mas o único modo de aplicar o dinheiro é trocá-lo por outros produtos. Assim, a mera circunstância da criação de um produto imediatamente abre um mercado para outro produto”

J.B SAY

Simplificando, Say defende que um produto só pode ser comprado com o valor de outro produto. Para comprar algo tenho que ter produzido algo.  Ele defendia que o dinheiro era uma forma de facilitar o escambo e a riqueza provinha dos bens e serviços e não do dinheiro em si. Como ele bem pontuou em seu tratado de economia:

“O dinheiro é apenas a viatura do valor dos produtos

(SAY, 1983, p. 138).

Essa Lei fica clara na página 137 do capitulo 15 do livro Tratado de Economia Política (Traité d’économie politique), da edição em português de 1983 (Abril Cultural):

“o homem cuja indústria se aplica em conferir valor às coisas criando-lhes um uso qualquer só pode esperar que esse valor seja apreciado e pago onde outros homens têm os meios de adquiri-los. Em que consistem tais meios? Em outros valores, outros produtos, frutos de sua indústria, de seus capitais e de suas terras: daí resulta, embora à primeira vista pareça um paradoxo, que é a produção que propicia mercados aos seus produtos.”

(SAY, 1983, p. 137)

Segundo Per Bylund, PHD em economia pela Universidade do Missouri, a Lei dos Mercados defende que:

“Em outras palavras, a produção precede o consumo, e a demanda de um indivíduo só pode ser satisfeita se este indivíduo também ofertar algo a alguém.

A Lei dos Mercados, portanto, diz que o valor dos bens e serviços que qualquer indivíduo pode comprar é igual ao valor de mercado daquilo que ele pode ofertar. Ou, em um sentido macroeconômico agregado, o valor dos bens e serviços que qualquer grupo de pessoas pode comprar no agregado é igual ao valor de mercado daquilo que eles podem ofertar no agregado.”

Per Bylund

Segundo (TANCREDO, 2019):

Se eu pudesse criar um mapa verbal da lei de Say, eu diria que seria da seguinte forma: usamos de um meio — recurso escasso — que não foi consumido para disponibilizar determinados recursos para um consumo futuro; o tempo entre a disponibilização deste recurso até o seu fatídico consumo é conhecido como poupança; esta poupança possui uma identidade com o investimento — realocar recurso na expectativa de aumentar seu retorno num futuro; este investimento possibilitará uma produção de valor maior no futuro; esta produção ocorrerá na expectativa de que o recurso seja consumido no futuro.

Henrique Tancredo

A Lei de Say é muitas vezes interpretada de forma equivocada, com muitos acusando a mesma de dizer que “A oferta cria necessariamente sua própria demanda“. Para perceber como está é uma interpretação equivocada, basta analisar outros trechos da própria obra de Say, como este:

“Dado que cada um de nós só pode comprar a produção de terceiros com nossa própria produção, e dado que o valor do que podemos comprar é igual ao valor do que podemos produzir, então quanto mais o homem pode produzir mais ele pode comprar”.

J.B SAY

A Lei de Say foi aperfeiçoada por grandes economistas como David Ricardo e John Stuart Mill.

KEYNES VS MISES

Sua teoria foi alvo de diversas críticas, principalmente por economistas como o famoso John Maynard Keynes (1883-1946) e os seus seguidores.

Após a grande Depressão, a visão de Lord Keynes ganhou muito espaço na academia e por isso a lei de Say é considerada equivocada por economistas Keynesianos. Segundo os mesmos Say defendia que “A oferta cria necessariamente sua própria demanda”.

Vamos ver o que o próprio Lord Keynes diz sobre a lei de Say na introdução da edição francesa de 1939, da obra General theory of employment, interest and money:

Creio que, até uma época recente, a ciência econômica em todos os lugares tem sido dominada . . . pelas doutrinas associadas ao nome de J.-B. Say.  É verdade que sua “lei dos mercados” já foi há muito abandonada pela maioria dos economistas; porém, eles próprios ainda não libertaram das suposições básicas criadas por Say, particularmente de sua falácia de que a demanda é criada pela oferta. . . . No entanto, uma teoria baseada nesta suposição é claramente incapaz de atacar os problemas do desemprego e dos ciclos econômicos.

John Maynard Keynes

O economista austríaco Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881-1973) criticou a visão de Lord Keynes. Mises afirma que a lei de Say estava correta e o economista inglês errado. Vamos ver o que o professor Mises diz sobre a visão de J. Keynes:

“O mais sincero defensor e pregador da inflação em nossa época, Lord Keynes, estava certo, do seu ponto de vista, quando atacou aquilo que é chamado de “Lei de Say”.  A Lei de Say é uma das grandes façanhas da teoria econômica.  O francês Jean-Baptiste Say, na chamada Lei de Say, disse que você não pode aprimorar as condições econômicas simplesmente aumentando a quantidade de dinheiro na economia; quando os negócios não estão indo bem, não é porque não há dinheiro suficiente.  O que Say tinha em mente, o que ele disse quando criticou a doutrina de que deveria haver mais dinheiro na economia, era que tudo o que alguém produz representa, ao mesmo tempo, uma demanda por outras coisas.  Se há mais sapatos produzidos, esses sapatos serão oferecidos no mercado em troca de outros bens.  A expressão “a oferta cria demanda” significa que o fator produção é essencial.  Expressada mais acuradamente, ele estava dizendo que “a produção cria consumo”, ou, ainda melhor, que “a oferta de cada produtor cria sua demanda pelas ofertas de outros produtores”.  Dessa forma, um equilíbrio entre oferta e demanda sempre existirá em termos agregados (embora Say reconheça que pode haver escassez e fartura em relação a produtos específicos).

Em última instância, os bens não são trocados por dinheiro — o dinheiro é apenas um meio de troca; os bens são trocados por outros bens.  “Você quer minhas maçãs?  O que você me dá em troca delas?”  Say acreditava que a criação de mais dinheiro simplesmente cria inflação de preços; mais dinheiro perseguindo a mesma quantidade de bens.

E se você aumentar a quantidade de dinheiro, você não estará melhorando a situação de ninguém, exceto daquele indivíduo — ou daquele grupo de indivíduos -. para quem você dá esse dinheiro recém-criado; esse indivíduo, ou esse grupo, poderá então comprar mais coisas, retirando mais bens do mercado, privando outras pessoas desses bens, piorando o bem-estar delas.”

Ludwig von Mises

A controvérsia sobre a validade da Lei de Say continua até os dias de hoje. Muitos economistas, principalmente liberais e libertários, defendem a Lei de Say e muitos, principalmente os Keynesianos discordam da teoria de Say.

OBRAS

As principais obras de Say são:

  • Traité d’économie politique
  • De l’Angleterre et des Anglais
  • Catéchisme d’économie politique
  • Lettres à M. Malthus sur l’économie politique et la stagnation du commerce
  • Mélanges et correspondance d’économie politique.

LEGADO

A influência de Say é vista até hoje, seja devido a elaboração da Lei dos Mercados seja por suas contribuições para o campo do empreendedorismo ou as diversas outras contribuições desse pensador, que com toda certeza é um dos mais importantes dentre os economistas clássicos.

REFERÊNCIAS:

SAY, Jean-Baptiste. (1983). Tratado de economia política. Vol I. São Paulo, Abril Cultural.

https://www.mises.org.br/article/1164/a-verdadeira-lei-de-say–e-nao-a-distorcao-keynesiana (acesso 08/11/2021)

https://henridoyt.medium.com/a-rela%C3%A7%C3%A3o-entre-consumo-e-desemprego-6530fa33d2ec (acesso 08/11/2021)

https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2721 (acesso 08/11/2021)

Gabriel Almeida Braga

Gabriel Almeida Braga

Escritor, estudante de Ciências Econômicas, gosta principalmente de Microeconomia e da História do Pensamento Econômico (HPE), graduando em Administração de Empresas, cofundador da Apptime, fundador da iniciativa Economia para Iniciantes e editor-chefe do site Econotime.

12 thoughts on “Lei de Say: Conheça a verdadeira Lei dos Mercados

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