Processo de Mercado e Descoberta Empresarial

Quando dizemos que a Teoria Econômica Austríaca não se prende a construções idealistas convenientes para a criação de modelos matemáticos a fim de obter uma maior veracidade em seus teoremas, o contraste entre o homo agens e o homo economicus talvez seja o primeiro exemplo que venha à mente, pelo fato do primeiro ser um agente que toma decisões propositadas podendo incorrer em erros e que age com base em juízos de valor que não necessariamente visa um estado de bem-estar MATERIAL superior, quanto o segundo (do modelo neoclássico) é um agente maximizador de uma satisfação necessariamente material.

Porém existe uma divergência ainda maior no processo de análise positiva do fenômeno social do mercado. Ao contrário dos neoclássicos, que enxergam o mercado como um conjunto de compradores e vendedores ou um local no qual as trocas ocorrem, visando diversos estados de equilíbrio estático e se adequando perfeitamente a um modelo matemático, com agentes com informação perfeita, ausência de influência individual nos preços e afins, a Teoria Austríaca nota que o mercado é um processo em constante mudança nas variáveis exógenas que geram uma tendência ao equilíbrio, de modo que cada ação individual pautada em avaliações subjetivas resulte em um determinado estado de coisas no mercado (como essas ações são baseadas em julgamentos que mudam ao longo do tempo com os objetivos de cada agente, torna-se impossível um estudo de ciências sociais sob o método empírico das ciências naturais pois este pressupõe uma regularidade na concatenação dos eventos, enquanto a ação humana é teleológica e é marcada pela finalidade irregular), caracterizando uma complexidade tamanha nos fenômenos do mercado de forma que seja impossível de reunir toda a informação necessária para determinar os preços e quantidades ótimos através da micro e macroeconometrias (que é a natureza do problema do cálculo econômico sob o socialismo em uma economia complexa).

Erros cometidos por certos empresários geram discrepâncias no sistema de preços que geram oportunidades de lucro para empreendedores que, via arbitragem ou produção, direcionam o preço e a quantidade dos produtos e serviços na direção do equilíbrio, porém estes erros, ao mesmo tempo em que geram as oportunidades de lucro, afastam a economia da coordenação da tendência de equilíbrio daquele período de tempo, enquanto a ação bem sucedida e lucrativa tem efeito coordenativo e atrai concorrentes proporcionalmente à grandeza dos lucros obtidos.

O empreendedorismo ou função empresarial necessita de um constante alerta para essas oportunidades de suprir demandas novas e gerar lucro.

Não há nada de impessoal, místico ou automático no processo do mercado, o mercado não é um ente misterioso ou algo do tipo, o mercado é meramente formado por tomadas de decisões individuais baseadas em expectativas de alcançar estados de satisfação superiores do ponto de vista de cada agente do mercado.

Do lado da firma, temos empresários que, além de alocar os fatores de produção da maneira mais eficiente possível (minimizando custos), precisam gerar valor para o máximo de consumidores possível (de modo que maximize a receita, é necessário que os consumidores estejam dispostos a pagar o preço do produto e, quanto mais valor os consumidores enxergarem em um produto, maior o valor monetário que estarão dispostos a pagar por ele).

Na quimérica concorrência perfeita do modelo neoclássico, na qual há um grande número de compradores e vendedores, não há nenhuma influência individual no preço, além de produtos homogêneos. Todavia, o mercado é um processo no qual cada decisão, seja ela do consumidor de comprar ou não comprar, comprar uma unidade a mais ou uma a menos, tem influência no preço, afinal influencia na quantidade demandada. Assim como as decisões da firma em relação ao nível de produção e características do produto, que são pautadas pelas expectativas sob a demanda futura e suas preferências (com base em análises de mercado).

A competição catalática (mercadológica) é uma forma de competição cooperativa, ou seja, competição na produção de bens, de soluções que auxiliam os consumidores a reduzir sua insatisfação e alcançar seus fins. Isso é o que a difere de uma guerra ou competição na criação de males. Portanto, é incorreto afirmar que ela é destrutiva, primeiro porque ela é coordenativa e leva a economia em direção ao equilíbrio, segundo porque não há destruição mas realocação de recursos de modo a melhor atender as necessidades da sociedade (mercado), ou incorrer em um salto lógico de que a mesma levaria a crises.

Além disso, a heterogeneidade dos produtos se deve exatamente por essa corrida para satisfazer as necessidades do consumidor da melhor maneira possível, assim como as alterações no conhecimento tecnológico e mudanças no nível informacional de cada agente sempre alterarem as regras do jogo. As firmas não são “price-takers” ou “price-makers” mas sempre especuladores (price-especulators) sobre a receita que poderão obter de acordo com a reação da demanda aos preços (que não necessariamente se comportará de forma plenamente previsível), eles não precisam, em mercados altamente competitivos, se despreocupar com o que os concorrentes estão fazendo mas, assim como estudamos em oligopólios em microeconomia, devem ajustar sua produção em resposta às estratégias da concorrência sem deixar de focar na satisfação dos clientes.

Por mais que uma única empresa ou poucas se estabeleçam soberanas nas preferências dos consumidores, nenhum “monopólio natural” poderá se manter sem continuar atendendo as necessidades dos consumidores da melhor maneira possível, pois as barreiras de entrada que não sejam estabelecidas por regulamentação (que aumenta o custo fixo para novas empresas entrarem no mercado ou que empresas grandes estrangeiras tomem uma fatia do mercado desses monopólios) correm constante risco de serem eliminadas pela evolução do desenvolvimento tecnológico (e.g a falência de locadoras, principalmente a gigante blockbuster com o surgimento do streaming, evolução da medicina, etc), consumos concorrentes (substituição por outros produtos completamente diferentes por uma mudança na escala de valoração causada pelo alto custo do bem ou serviço ofertado pelo mono ou oligopólio), entre outros fatores (além disso monopólios naturais possuem problemas de contabilização dos lucros devido à falta de avaliação mercadológica dos fatores de produção monopolizados que necessitariam serem colocados à venda para que pudesse se quantificar em termos monetários os custos da firma e, consequentemente, os lucros).

Os modelos estáticos de equilíbrio tem utilidade de explicação teórica até o ponto em que existe uma real tendência da oferta, demanda, e suas respectivas quantidades convergirem, mas a utilidade é meramente elucidativa, e não uma análise real de uma economia dinâmica em tempo não-newtoniano. Além disso, o ponto em que residiria o equilíbrio muda constantemente visto que as preferências dos consumidores estão em constante mudança e os produtos e os processos produtivos também, conforme a tecnologia avança de maneira expressiva, as regras do jogo mudam constantemente.

O que se chama de ordoliberalismo, que é uma vertente de intervencionismo baseada na literatura de falhas de mercado (que implicitamente supõe uma análise matemática neoclássica de eficiência), é nada mais nada menos que uma forma de tentar ajustar a realidade dinâmica do mercado ao leito de procusto da concorrência perfeita. Ou ainda pior, dar o remédio inadequado para barreiras de entrada criadas por intervencionismo e regulamentação compulsória e resultando em efeitos ainda mais adversos por ser incapaz de reunir a informação necessária para gerar o efeito matematicamente descrito pelos interventores.

Ao contrário do que muitos desconhecedores da Teoria Austríaca afirmam com leviandade, a Escola Austríaca de Economia não só já levava as expectativas dos agentes em consideração em suas análises (na própria estrutura lógica da ação), como a assimetria de informação e a dispersão da mesma, o que a tornou até mesmo precursora da Nova Economia Clássica (ou Escola das Expectativas Racionais).

A dispersão informacional também implica que, devido ao grande número de informações dispersas a respeito das variáveis do mercado supracitadas (que são expressas nos preços em termos de moeda), é impossível para um planejador central organizar toda essa informação qualitativa e quantitativa de todos os bens que são produzidos na sociedade, pois não podem prever todas as ações individuais em uma economia complexa. Tal como, sem preços formados em um real processo de mercado que reflitam avaliações relativas aos bens e serviços e bens de capital, da moeda e da escassez destes, é impossível qualquer racionalidade econômica, visto que não há como reunir essa informação com números arbitrários e inventados/simulados (preços-parâmetros que não refletem avaliações e disponibilidade de recursos, tampouco o desgaste dos bens de capital).

Mesmo que um planejador central possuísse plena informação a respeito dos custos de produção de cada bem singular, ainda possuiria plena ignorância a respeito do grau de importância atribuído pelas avaliações individuais de cada um dos consumidores a respeito dos bens produzidos. A crença em uma teoria de valor-trabalho não mudaria o fato de que necessidades individuais e desejos individuais diferem entre si, tampouco mudaria a necessidade de produzir de acordo com tais necessidades e desejos e contabilizar a escassez de fatores e insumos de produção de modo a atendê-los da melhor forma possível, resultando, na realidade, em escassez e filas.

Portanto, se observa que a análise do processo de mercado da Teoria Austríaca não é apenas mais realista e positiva (ao invés de tentar encaixar a realidade das interações sociais em modelos matemáticos), como se assemelha muito com a análise de mercado de uma gestão de marketing, que é uma área muito voltada ao estudo prático dos mercados e sua realidade. Outra conclusão que, à primeira vista seria contra intuitiva, é que o processo descentralizado de produção é a única forma racional de alocar recursos escassos na sociedade, e que o planejamento central é o caos planejado por agentes que estão muito longe de obter a onisciência sob a informação dispersa em uma economia complexa.

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Pedro Micheletto Palhares

Pedro Micheletto Palhares

Estudante de Ciências Econômicas e Pós Graduando da Pós Graduação em Economia Austríaca (PGEA IMB), Produtor de conteúdo acadêmico independente, Redator do Boletim de Conjuntura Econômica da USJT, Dono do canal Economista Metalhead.

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