Estamos diante de uma Estagflação? [PARTE 1]

Com o encerramento de 2021 e cenário bastante desafiador para 2022, ano eleitoral, faremos uma série de textos sobre a realidade econômica atual sob a ótica austríaca. Portanto, fiquem atentos aos próximos dias pois teremos a continuação do tópico! A última parte traremos um bônus como se proteger.

Ao que tudo indica, 2022 será um ano bastante desafiador e por isso a importância cada vez mais urgente de se antecipar. Há quem diga que estamos caminhando para uma estagflação. Mas será que essa análise é plausível?

Definindo a estagflação

Para responder à pergunta do título, primeiro precisamos definir o termo. Conforme o nome já indica, estagflação é um quadro de estagnação econômica ou até recessão ocorrendo em simultâneo a inflação acelerada. Até a década 1970, esse tipo de combinação parecia improvável.

Isso porque a crença de economistas e policymakers, influenciados pelo keynesianismo em voga, era de que havia correlação direta entre atividade econômica e índices de inflação.

Em outras palavras isso quer dizer, em tese, que atividade econômica intensa, com muitas pessoas empregadas e consumindo, pressiona a inflação para cima. Já em momentos de desemprego, renda prejudica e pouco consumo, a tendência seria de inflação mais baixa.

Havia até um modelo bastante usada conhecido como Curva de Phillips, que apontava para desemprego baixo, inflação alta; desemprego alto, inflação baixa.

Qual a origem da Estagflação

Parece plausível, não fosse a ação intervencionista dos Bancos Centrais distorcendo os fundamentos do sistema de preços e movimento natural da economia. Por causa dessa percepção errônea, houve quem advogasse por mais inflação para “estimular” a economia, considerando a depreciação voluntária da moeda como algo positivo, sobretudo para manter os postos de trabalho.

Politicamente, inclusive, a visão que se calcificou foi: é mais vantajoso ter inflação que desempregados, portanto deve haver carta branca para os Bancos Centrais expandirem a oferta monetária.

Sendo assim, toda vez que a economia ameaçava desacelerar (ainda que fosse natural e breve), os Bancos Centrais entravam em ação para induzi-la novamente através de mais e mais expansão monetária. 

O problema, porém, é que no mundo real os recursos são escassos, por isso é impossível estimular a economia para sempre sem um momento de “fôlego” para que a produção, naturalmente mais lenta, se alinhe ao consumo, cujo caráter é mais imediato.

Chega-se a um momento em que as políticas monetárias não surtem mais efeito e a economia inevitavelmente diminui o ritmo como uma atitude de autorregulação.

Justiça seja feita, Keynes considerou essa possibilidade, chamando-a de armadilha de liquidez. Entretanto, também devemos frisar que as ideias do economista britânico foram o start para que autoridades monetárias e políticas se tornassem entusiastas do inflacionismo.

Como é mais confortável postergar momentos de baixa em vez de enfrenta-los, os estímulos são sempre escolhidos até chegarmos a um ponto de inflexão.

O quadro atual

Conforme a sessão anterior, entendemos a natureza de estagflação. Diante disso, cabe refletirmos se o quadro atual é exatamente esse. A pandemia que se alastrou em 2020 impactou a economia não só no curto prazo, mas manifesta seus efeitos também no médio e longo prazo.

No momento imediato às medidas de lockdown e consequente atividade econômica paralisada, diversas economias vivenciaram deflação, ou seja, queda nos preços. Isso se verificou, por exemplo, na economia brasileira em abril e maio do ano passado, quando houve, respectivamente, deflação de 0,31% e 0,38%.

Em outros países os indicadores de inflação foram bem tímidos no decorrer de 2020. Entretanto, com a população impossibilita de trabalhar, a oferta agregada ficou comprometida. Por outro lado, a demanda, como não podia ser diferente, se deslocou sobretudo para itens indispensáveis como alimentos.

Para suprir a perda de renda, governos pelo mundo entraram em ação com programas de auxílios, expandindo a oferta monetária. As medidas adotadas em 2020 e continuadas em 2021 agora mostram o efeito colateral.

Com mais dinheiro entrando na economia, limitação da oferta e demanda inelástica para bens essenciais, o resultado natural seria inflação. Para agravar a situação, perceberemos que este o cenário padrão mesmo em economias desenvolvidas.

Os EUA estão com inflação em 6,2%, registrando a mais alta desde 1990; Alemanha (5,2%); e Reino Unido (4,2), zona do Euro (4,9%). O Brasil, enfrenta sérias dificuldades (10,6%).

Na lista do G-20, nosso país se encontra em antepenúltimo, ficando à frente apenas da Turquia (21,3%) e Argentina (52,1%). A perda do poder de compra compromete o bem-estar das famílias e traz inúmeras mazelas sociais.

Hábitos alimentares dos brasileiros estão mudando, como diminuição do consumo de carne, assim como há casos de pessoas autônomas que trabalham com aplicativo de corrida deixando a profissão por causa do preço da gasolina.

É claro que não há parâmetros para compararmos a economia brasileira com as economias desenvolvidas, porém, mesmo em um comparativo com economias emergentes como México, Índia, Arábia Saudita, Indonésia e África do Sul, o Brasil está longe de apresentar um resultado “desculpável”.

O fato é que o Banco Central do Brasil manteve as taxas de juros em 2% (nível mais baixo da série histórica) por tempo demais. O FED também seguiu por esse caminho, ponderando se a inflação seria passageira ou se iria adquirir configuração mais estrutural.

Depois de praticamente um ano, finalmente as autoridades monetárias americanas perceberam que a inflação nos EUA veio para ficar, e agora o Banco Central americano trabalha para conter a inflação apertando a política monetária.

Resumindo, ano que vem teremos Bancos Centrais adotando políticas monetárias contracionistas, retirando liquidez no mercado e provocando desaceleração econômica. O efeito destrutivo da inflação ainda irá perdurar, e não só no Brasil.

Marcel Pereira Bernardo

Marcel Pereira Bernardo

Economista, laureado com os prêmios Menção Honrosa (Cofecon/2017), Mérito Acadêmico (Corecon-SP/2018), Economista do Ano: Categoria Melhores Formandos (OEB/ 2019) e autor do livro A Evolução do Dinheiro: da sua origem até as criptomoedas, pela editora Appris (2020).

14 thoughts on “Estamos diante de uma Estagflação? [PARTE 1]

  • Pingback: Estamos diante de uma estagflação? [Parte 2] - Econotime

  • Avatar
    26/03/2022 em 01:03
    Permalink

    It is appropriate time to make some plans for the future and it’s time to be happy.
    I have read this post and if I could I desire to recommend you few
    fascinating things or advice. Perhaps you can write subsequent articles regarding this article.
    I desire to read more issues about it!

    Resposta
  • Avatar
    26/03/2022 em 09:48
    Permalink

    Good info. Lucky me I discovered your website by chance (stumbleupon).

    I’ve book-marked it for later!

    Resposta
  • Avatar
    26/03/2022 em 11:28
    Permalink

    Hi there! I know this is kinda off topic but I was wondering if you knew where I could
    get a captcha plugin for my comment form? I’m using the same blog platform as yours and I’m having problems finding one?
    Thanks a lot!

    Resposta
  • Avatar
    26/03/2022 em 15:12
    Permalink

    Thanks for finally talking about > Estamos diante de uma Estagflação?

    [PARTE 1] – Econotime < Liked it!

    Resposta
  • Avatar
    26/03/2022 em 15:38
    Permalink

    If you want to improve your experience simply keep visiting this web page
    and be updated with the hottest news posted here.

    Resposta
  • Avatar
    26/03/2022 em 17:57
    Permalink

    Please let me know if you’re looking for a author
    for your site. You have some really good articles and I
    think I would be a good asset. If you ever want to take some
    of the load off, I’d love to write some articles for your blog in exchange for a link back to mine.
    Please shoot me an e-mail if interested. Thank you!

    Resposta
  • Avatar
    27/03/2022 em 02:01
    Permalink

    When someone writes an paragraph he/she maintains the idea of a user in his/her brain that how a user
    can know it. So that’s why this piece of writing is great.

    Thanks!

    Resposta
  • Avatar
    27/03/2022 em 04:52
    Permalink

    Right here is the right web site for anybody who would like to
    understand this topic. You realize so much its almost hard to argue with you
    (not that I really will need to…HaHa). You definitely put a
    brand new spin on a topic that has been written about
    for years. Wonderful stuff, just excellent!

    Resposta
  • Avatar
    27/03/2022 em 05:03
    Permalink

    I am not sure where you’re getting your info, but great topic.
    I needs to spend some time learning much more or understanding more.
    Thanks for excellent information I was looking for this information for my mission.

    Resposta
  • Avatar
    27/03/2022 em 07:21
    Permalink

    whoah this blog is magnificent i love studying your posts.
    Keep up the great work! You know, lots of persons are hunting round for this
    info, you can help them greatly.

    Resposta
  • Avatar
    27/03/2022 em 09:36
    Permalink

    Very shortly this site will be famous amid all
    blogging and site-building viewers, due to it’s pleasant articles or reviews

    Resposta
  • Avatar
    27/03/2022 em 13:18
    Permalink

    What’s Taking place i’m new to this, I stumbled upon this
    I’ve found It positively helpful and it has helped me out loads.
    I’m hoping to contribute & aid other users like its helped
    me. Great job.

    Resposta
  • Avatar
    27/03/2022 em 22:33
    Permalink

    Sweet blog! I found it while browsing on Yahoo News.
    Do you have any tips on how to get listed in Yahoo News? I’ve been trying for a while but I never seem to get there!

    Thank you

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.