A Verdadeira Relação entre Desemprego e Inflação

Introdução

A visão econômica convencional no que se refere a relação entre Desemprego e Inflação, é a de que existe um trade-off entre ambos, ou seja, que os dois fenômenos possuem uma função que os conectam, porém sendo inversamente proporcionais — i.e, a taxa de inflação e a taxa de desemprego influenciam-se inversamente, de forma que nível maior de inflação seria consequência de um nível maior de emprego, enquanto o desemprego seria consequência de um nível menor de inflação.

Tal ideia foi desenvolvida inicialmente pelo economista britânico William Phillips (1914-1975), que descobriu esta suposta relação negativa, a qual é representada por uma curva batizada com seu nome (Curva de Phillips ).

Devido o fato de tal curva sinalizar este suposto trade-off, então fica a cargo do governo escolher o que é supostamente melhor para a economia: inflação ou desemprego? Mais especificamente, baixa inflação e, em seguida, desemprego, ou inflação e empregabilidade? Então tal esquema é utilizado na macroeconomia moderna para aplicações de políticas monetárias e trabalhistas a fim de mediar as duas situações.

Alguns Problemas Iniciais

Apesar de tal postulado não ser necessariamente errado, existem alguns problemas teóricos presentes no mesmo. Em primeiro lugar, para que tal relação negativa tenha sentido, os economistas precisam partir do pressuposto de que inflação é um fenômeno de preços e não necessariamente um fenômeno cuja essência parte dos fundamentos monetários em relação da moeda.

Neste sentido, é como se inflação fosse apenas um aumento de preços. A princípio, os preços inflam devido aumento dos custos relativos a produção por causa do aumento na demanda por bens de consumo, estimulando a produção a aumentar, o que, por sua vez, aumenta a demanda por mão-de-obra e seu valor no mercado. Isto aumenta as despesas que os empresários precisam arcar, sendo refletidas nos preços do produto final. Em suma, no jargão macroeconômico, aumento no nível de empregos por aumentar o nível de salários, aumenta o nível de preços dos produtos, sendo isto o que comumente se acredita ser inflação.

Mas isto não é inflação. Inflação é uma depreciação do poder de compra da moeda devido um aumento de sua oferta na economia. Aumento de preços devido um aumento na demanda por bens de consumo e aumento na demanda por mão-de-obra, são apenas aumento de custos devido tais fatores estarem sendo mais valorizados no mercado. Mas se houve tal aumento nos custos e nos preços devido uma necessidade de se produzir mais, os preços irão baixar no longo prazo justamente porque a produção aumentou, pois haverá um aumento na oferta em relação a demanda.

Em segundo lugar, realmente existe este trade-off, mas apenas no curto prazo. Tendo em vista que, como foi dito, a inflação é um fenômeno consequente do aumento da oferta de dinheiro, via políticas monetárias que pressionam a taxa de juros para baixo, tornando o cenário econômico artificialmente propício à investimentos que antes não eram viáveis, houve uma alteração nas preferências temporais dos agentes que irão investir em etapas mais distantes do consumo, incluindo investir em mão-de-obra, caso o salário aumente mais lentamente que os preços de outros fatores.

Mas tal efeito positivo no curto prazo não se sustenta por tanto tempo. Pois a expansão monetária distorce a estrutura de produção, o que, eventualmente, irá expor os erros derivados de alocações de recursos totalmente infundadas, fazendo os agentes perceberam que fizeram investimentos incorretos, que não podem ser sustentados e precisam ser liquidados. E mais: quando isso tudo for finalmente percebido, uma reestruturação do capital deve ser feita. Isto consiste em aumentar os preços para tentar recuperar os prejuízos, e cortar custos para equalizar novamente os recursos em consonância com a quantidade de capital existente.

Para isso, projetos que foram empreendidos com o dinheiro novo precisam ser encerrados, o que por si só infere na existência de um excedente de mão-de-obra sem utilidade, pois o que a sustentava no mercado era a expansão de crédito junto com o projeto iniciado com crédito barato, que irá ser deixado de lado juntamente com a mão-de-obra que foi empregada nele. Além disso, neste ambiente de recessão provocada pela expansão, os empresários tenderão a evitar contratações. Então o efeito minimamente positivo no curto prazo, não se iguala ao que se sucederá no longo prazo.

Em terceiro lugar é justamente na necessidade de recuperação econômica, onde investimentos são pausados e outros projetos encerrados que há desemprego, como já foi explicado. Então no longo prazo, um período inflacionário fomenta o desemprego, não o contrário. Isso será melhor compreendido no próximo tópico.

A Inflação como causa do Desemprego

Uma das principais demonstrações de como o desemprego é motivado pela inflação é esta: dinheiro é uma forma de representar e transmitir as informações do mercado para os agentes. Como a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos enfatiza, quando há um boom inflacionário precedido de uma expansão da oferta de dinheiro, principalmente quando em forma de crédito, isto acaba por transmitir falsas informações sobre o mercado, induzindo malinvestiments, consequentemente.

Os agentes vão investir em estágios produtivos mais distantes do consumo, por estes aparentarem ser mais lucrativos. Porém, quando o mercado procurar se corrigir e os projetos iniciados se demonstrarem inviáveis, eles terão de ser encerrados e os bens de capital usados nos mesmos serão liquidados, incluindo a mão-de-obra, que estará, ao menos momentaneamente, em desuso. Mas há outras considerações sobre a inflação que podemos compreender em conjunto com o desemprego.

O cálculo econômico é a ferramenta que busca realizar os levantamentos e estimativas necessários para mediar a viabilidade de um empreendimento. O empreendedor considera a inflação em seus cálculos. Alguns investimentos não são viáveis em qualquer nível de inflação, o que denota que certos empreendimentos precisam ser planejados dentro das limitações das expectativas inflacionárias dos agentes.

Em outras palavras, se o leitor pretende iniciar um projeto específico e a taxa de inflação vigente nesta situação hipotética for, digamos, 5% ao ano, então seu planejamento e estimativas devem levar tal percentual em conta. Acontece que quando maior for a inflação, menos viável é o seu projeto. Pois a inflação, como defini sendo um decréscimo no poder de compra da moeda, faz diferença nas suas estimativas, obviamente. Uma taxa de 5% ao ano, significa que os custos de seu projeto serão continuamente 5% maiores. Se a taxa de inflação for 10%, 20%, 30% maior, então os custos do seu empreendimento serão maiores nestas proporções.

Quanto maior a inflação, maiores serão os custos materiais de um investimento que o agente terá de arcar, e, consequentemente, quanto maior for tais custos, menor será as expectativas dele em relação ao investimento, aumentando a taxa de sua preferência temporal. O agente, portanto, terá uma visão mais de curto prazo, e seus investimentos serão restritos a etapas mais próximas do consumo. Ou seja, o agente em questão gastará menos em bens de capital e isso inclui gastar menos em mão-de-obra. Então não faz sentido crer que a inflação iria aumentar o nível de empregos, isto por um mero fato contábil. Isto, claro, desconsiderando todos os encargos trabalhistas que dificultariam ainda mais qualquer contratação nesta hipótese.

Por lógica, um nível inflacionário baixo é o que torna o ambiente de mercado propício para investimentos, pois a oferta de bens e a oferta de dinheiro possuem algum nível de equilíbrio, tornando os preços mais ou menos estáveis, com o empreendedor se sentindo mais motivado a investir por notar que precisa poupar menos do que ele teria caso a taxa de inflação estivesse mais alta — isto, claro, implicando que, devido um alto nível de inflação, ele não desistiria de seu empreendimento, ou investiria menos e, por fim, caso ele persistir em seu investimento mesmo neste estado inflacionário, ele teria de poupar bem mais do que pouparia, caso contrário.

Conclusão

A partir desta estabilidade do poder de compra da moeda descrita, o empreendedor pode planejar melhor e, consequentemente, investir mais em capital intensivo e mão-de-obra. Então nisto reside a falta de lógica em acreditar que existe uma escolha entre inflação e desemprego, visto que o primeiro que causa o último. Isto tem de ser verdadeiro pelo simples fato de que nenhum empreendedor minimamente sensato iria pensar: “Poxa, a inflação está cotada em 20%. Já que os custos de tudo seguirão este percentual, vou gastar empregando 100 pedreiros, 50 motoristas e 20 empregadas domésticas.” Se o leitor não viu sentido nisto, então uma teoria que afirma que inflação promove empregos também não faz sentido.

Como Hayek bem expressa justamente no final de Desemprego e Política Monetária, sobre economistas que dizem que a inflação é benéfica:

“Isto pode ser verdade a curto, mas não a longo prazo, não há a escolha entre inflação e desemprego, da mesma forma que não é possível escolher entre comer demais e indigestão: a glutonaria pode ser muito agradável enquanto está em processo, mas o dia do ajuste de contas – o dia da indigestão – seguramente virá.”

F.A. Hayek
Victor Daniel

Victor Daniel

Escritor, estudante e assíduo nos estudos de Economia, Filosofia e Sociologia

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