Estamos diante de uma estagflação? [Parte 2]

Ontem iniciei uma série de textos, divididos em 3 partes, sobre estagflação e o cenário para 2022. Para quem não leu a Parte 1, clique aqui.

Bem, dando continuidade, hoje vamos falar sobre quais medidas podem ajudá-lo a se proteger. Mas antes, segue o disclaimer:

DISCLAIMER

O texto a seguir é apenas a minha opinião enquanto economista (Corecon-SP 2ª Região, nº 36635). Não se trata, portanto, de recomendação de nenhum produto de investimento, nem deve ser interpretado como conselho, oferta e/ou solicitação para compra ou venda de ações, títulos, valores mobiliários e/ou de quaisquer outros instrumentos financeiros.

Também esclareço que rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura.

O que esperar para 2022?

O panorama, não só no Brasil, mas também em muitas economias desenvolvidas, é de atividade econômica fraca e taxas elevadas de inflação. Particularmente em terras tupiniquins, os resultados do PIB no 2º tri e 3º tri de 2021 indicam recessão técnica. Isso significa que estamos em sinal de alerta, e, caso tenhamos um próximo trimestre com PIB em queda, oficialmente entraremos em recessão.

É preciso ressaltar que as estimativas para 2022, conforme o último Boletim Focus (13 de dezembro), teremos Selic acima dos dois dígitos, IPCA acima da meta, dólar em linha de resistência, mantendo-se perto dos R$5,50, PIB estimado em apenas 0,5%, mercado turbulento e bastante ligado no cenário político, já que será ano de eleição. Todos os ingredientes nos dão motivos sobrantes para mais cautela e menos “invencionices”.

Conforme demonstrado na Parte 1, inflação alta e desaceleração econômica não é exclusividade brasileira. Tal contexto econômico repercute até mesmo nas economias avançadas, portanto não há muito para onde correr. Os investidores que afirmam que basta ficar longe do Brasil e buscar o exterior para encontrar um porto seguro deveriam reconsiderar. A realidade é que não há porto seguro.

Com tantos Bancos Centrais abusando da prerrogativa de criar moeda, cadeias produtivas desalinhadas, surgimento da variante ômicron e perigo iminente de controle estatal nunca antes visto na história humana, com seus passaportes sanitários que segregam o povo em duas classes, vemos que a liberdade individual e o patrimônio dos cidadãos comuns estão cada vez mais comprometidos. Então qualquer país pode ser considerado um campo minado.

E aqui vem a pergunta-chave: onde encontraremos proteção?

Pelo ponto de vista da liberdade individual, é difícil responder. Dependerá mais do engajamento de cada povo e a resposta estatal para cada caso específico. Já do ponto de vista econômico-financeiro, ainda há o que fazer. E não, não é simplesmente seguir o jargão “compre criptos” tão martelado por muitos libertários. Nada contra as criptos, inclusive tenho-as em minha carteira, mas ficar somente nisso não será tábua de salvação.

Estratégia

Pesquisando sobre cuja estratégia tem vínculo com ciclos econômicos, isto é, com cenários de boom and bust, ficamos sabendo do Portfólio Permanente. A estratégia foi concebida pelo americano e analista de investimentos Harry Browne (1933-2006). Browne inclusive foi candidato a Presidente dos Estados Unidos pelo Partido Libertário e bastante identificado com os ensinamentos da Escola Austríaca de Economia.

O portfólio desenvolvido por ele já está muito bem consolidado no mercado, com 50 anos de existência, mantendo 88% de assertividade ao longo desse período, é fácil de monitorar e atualizar, e apresenta ótimos retrospectos em ocasiões de incerteza, como foi o caso da pandemia 2020, quando o Portfólio entregou resultado geral acima de 16% a.a. E sim, caso queira, você pode incorporar criptos à estratégia.

Importante pontuar que durante outra crise recente, ocorrida em 2008, enquanto o S&P caiu desastrosos 57%, o Portfólio Permanente neutralizou a forte pancada sofrida pelos mercados, proporcionando aos investidores estabilidade e segurança.

Ou seja, enquanto o mundo mergulhava em um dos mais severos momentos da história financeira atual, aqueles que adotaram o Portfólio Permanente protegeram suas finanças pessoais.

Isso é possível porque a estratégia responde bem a conjunturas diversas uma vez que contempla cada um dos momentos de ciclos econômicos, a saber: expansão, recessão, inflação e deflação. E aqui vai um adendo importante: Ray Dalio, grande referência no mercado financeiro, também construiu um Portfólio abrangendo os diferentes períodos cíclicos da economia.

A diferença, no entanto, é que o Portfólio Permanente, quando comparado ao All Weather de Ray Dalio, demonstra declínios (drawdowns) menos intensos, configurando uma estratégia mais segura e com desempenho bem parecido. Para termos uma ideia, o pior desempenho do Portfólio Permanente ocorreu no longínquo ano de 1981, quando caiu 5,34%. Sendo que em 1980, teve desempenho acima dos 13% e em 1982 atingiu mais de 23%.

Mas para quem tem perfil arrojado, a estratégia de Ray Dalio pode funcionar melhor. O importante é perceber que tanto a abordagem de Browne quanto de Dalio tem forte embasamento na premissa que altos e baixos da economia são inevitáveis, portanto, na visão deles, é interessante posicionar-se de antemão qualquer que seja o cenário. Esse é o melhor meio de evitar surpresas.

Pensar nos Ciclos

Particularmente, – e aqui reforço que é apenas minha opinião – gosto bastante de estratégias que vão além da euforia do momento. E a verdade é que muitos alocam seus ativos com base nisso e criam o efeito manada. Por exemplo, quando a Selic estava caindo, muitos migraram para a renda variável. Tão logo a Selic passou a aumentar, os investidores de primeira viagem na bolsa voltaram para a renda fixa.

Notamos que não há bem uma estratégia definida pela maior parte dos investidores. A procura é por aquilo que “está rendendo” no momento. Nada contra quem age assim, mas prefiro análises mais conjunturais e de longo prazo. Também tenho predileção por manter-se fiel à estratégia inicialmente traçada, com pequenos reajustes de tempos em tempos, aproveitando uma ou outra novidade. Mas o core (núcleo) da ideia permanece.

Amanhã lançarei a Parte 3, contando um pouco mais sobre Harry Browne e seu Portfólio Permanente.

Marcel Pereira Bernardo

Marcel Pereira Bernardo

Economista, laureado com os prêmios Menção Honrosa (Cofecon/2017), Mérito Acadêmico (Corecon-SP/2018), Economista do Ano: Categoria Melhores Formandos (OEB/ 2019) e autor do livro A Evolução do Dinheiro: da sua origem até as criptomoedas, pela editora Appris (2020).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.