Keynes era Liberal?

Introdução

“O capitalismo é a crença mais estarrecedora de que o mais insignificante dos homens fará a mais insignificante das coisas para o bem de todos.”

John Maynard Keynes

Nas redes sociais é possível encontrarmos inúmeros absurdos. Porém, um dos maiores é uma página denominar-se liberal e defender Keynes. Afirmar que Lord Keynes era um “verdadeiro liberal” é tenebroso, pois demonstra: I) total desrespeito com os liberais; II) desconhecimento histórico e; III) deixa claro que o termo liberal está cada dia mais perdendo seu significado.

O “Liberalismo” de Keynes

A afirmação de que Keynes era liberal é uma deturpação do termo, da mesma forma que o fizeram nos EUA, onde os democratas são chamados de liberais. Obama, Hillary Clinton e os mais diversos políticos amantes do autoritarismo são denominados liberais. Considero isso ofensivo e confesso que é realmente assustador se deparar com um texto defendendo o “verdadeiro liberalismo de Keynes”, utilizando-se do argumento que ele se “autoconsiderava um liberal” e que outros pseudoliberais também o consideravam/consideram liberal.

Historicamente os liberais são conhecidos por sua forte oposição ao Estado, pois na visão deles, o Estado jamais deve controlar a economia e a liberdade individual. Para se ter uma noção, o Mercantilismo, que não é considerada oficialmente uma escola de pensamento econômico científico, caracterizou-se por uma forte intervenção do Estado na economia entre o século XV e o final do século XVIII, e foi isso que fez surgir opositores na época, como por exemplo, François Quesnay, Richard Cantillon, Anne Robert Jacques Turgot e demais pensadores, em especial os da Escola Fisiocrata que foram responsáveis por inspirar Adam Smith. A Escola Fisiocrata – esta sim considerada uma escola de pensamento econômico – defendia a propriedade privada, ordem natural e fazia uma oposição ferrenha às intervenções estatais! Depois dela, surgiu ainda a famosa Escola Clássica, e o Estado só veio a ter uma forte defesa com Karl Marx, que sequer foi levado à sério em sua época. Indo mais a fundo, mas nem tanto, os principais nomes do liberalismo econômico são: Adam Smith, Frédéric Bastiat, Jean-Baptiste Say, Thomas Jefferson, Carl Menger, Ludwig von Mises, F. A. Hayek, Irving Fisher, Bawerk, Thomas Sowell, Milton Friedman, e os mais diversos autores que eu poderia ficar horas citando. E o que eles têm em comum? Sempre defenderam fortemente um Estado mínimo, alguns acreditando que as funções do Estado eram apenas saúde, segurança e educação; enquanto outros, nem isso. Portanto, identificar John Keynes como um modelo de liberal é algo confuso, pois é sabido que ele adotou claramente a doutrina quase que mercantilista de forte intervenção estatal.

John Maynard Keynes surge acreditando que o capitalismo tem de ser fortemente controlado. Ele acreditava piamente que o Estado deveria intervir para “impulsionar os investimentos” e que, em tempos de crises, era melhor ter o dinheiro líquido (em circulação) do que abrir mão de emprestá-lo ou de gastá-lo, como forma de evitar a austeridade. De modo geral, Keynes defendia: Estado como o “provedor de uma vida digna aos cidadãos”; oposição aos ideais liberais (clássicos, neoclássicos e austríacos principalmente); investimento de capital por parte do governo; protecionismo (proteger o mercado interno da concorrência externa) e redução das taxas de juros de forma artificial; expansão monetária; equilíbrio entre a demanda e a produção; garantia de pleno emprego (criação de obras públicas como forma de fomentar o emprego); benefícios sociais. No entanto, isso tem uma “justificativa”, e ela está no chamado “Animal Spirit” dos empresários.

Na “Teoria Geral”, ele diz o seguinte:

“Mesmo posta de lado a instabilidade devida à especulação, há instabilidade devida à característica da natureza humana de que uma grande proporção de nossas atividades positivas depende mais de otimismo espontâneo do que de expectativas matemáticas, sejam morais ou hedonísticas ou econômicas. A maioria, provavelmente, de nossas decisões de fazer algo positivo, as completas consequências das quais serão delineados vários dias que virão, só podem ser tomadas por resultado de espíritos animais – um impulso espontâneo para a ação, ao invés da inação, e não como consequência de uma pensada média de benefícios multiplicada pelas probabilidades quantitativas.”

Keynes considerava que os empresários tomavam as suas decisões mais em função de seu instinto e da concorrência do que dos fundamentos econômicos, o que, segundo ele, gerava excessos (principalmente nos momentos de incerteza). Desta forma, sua ideia era que as políticas econômicas deveriam ter por finalidade “ajustar a economia”, claro, com intervenção estatal. Assim, “aumentando a demanda sem surtos inflacionários e mantendo o balanço de pagamentos estável”. Keynes acreditava que, como humanos passíveis de erros, os agentes econômicos precisam de algumas “regras”, dada a falta de autocontrole e a irracionalidade, ou, em outras palavras, os agentes econômicos são como animaizinhos burros que precisam de seres superiores controlando a economia desde cima.

Com isso, podemos concluir que Keynes vai contra os princípios liberais e não há um motivo razoável sequer para que Keynes seja denominado liberal. O fato dele admitir que precisamos de liberdade de mercado não significa que ele seja liberal, mas que ele apenas não era tão radical quanto Marx. Mas isso não é de se espantar, visto que Keynes é aquele economista que, segundo F. Hayek, sequer se interessava pelos economistas do século XIX. Ou seja, não se interessava pelos principais nomes do liberalismo clássico.

No longo prazo estaremos todos mortos

Keynes também ficou conhecido por ser o autor da frase: “No longo prazo estaremos todos mortos”. Apenas uma justificativa furada para pôr em prática suas ideias. Além disso, também não podemos deixar de lado o fato dele ser o responsável por “divulgar”, digamos assim, o espantalho criado sobre Say: “A Oferta necessariamente cria a própria demanda”. E apesar desse espantalho não ter sido criado por Keynes, foi utilizado por ele como base para fundamentar boa parte de sua teoria.

No prefacio do livro “O Fracasso da Economia Moderna”, de Henry Hazlitt, onde ele refuta completamente o livro “A Teoria Geral”, Murray Rothbard (autor do prefácio) mostra algumas citações de Keynes e seus seguidores onde fica claro a distância deles para com a responsabilidade fiscal e para com vários princípios do liberalismo econômico:

“―Não precisamos mais nos preocupar com uma depressão, porque agora o governo sabe como curá-la – com gastos deficitários e estabilizadores internos.”

“―Os X bilhões de dólares de gastos militares do governo são um suporte útil para a economia.”

“―As empresas vão melhorar no próximo trimestre porque o governo pretende conceder mais contratos e executar um déficit maior.”

“―Para verificar a ameaça à inflação, o governo deve impor alta tributação para aumentar o excesso de poder de compra.”

“―O principal dever econômico do governo é estabilizar a economia e garantir o pleno emprego.”

“―Em contraste com o capitalismo do século XIX, que enfatizava a economia e a produção, nosso capitalismo moderno depende para sua prosperidade da demanda do consumidor”.

Todas estas falácias citadas por revistas, jornais, canais de TV, etc., são totalmente aceitas por quase todos os partidos políticos e veículos de mídia. No entanto, não são verdades primordiais, mas sim, falácias maliciosas. Minha intenção aqui não é refutar cada uma delas, como bem fez Henry Hazlitt, mas sim, citá-las porque todas elas foram introduzidas no mundo moderno por Lord Keynes e seus discípulos, e é muito claro que essas falácias vão contra todo o pensamento liberal, seja liberal clássico, austríaco ou monetarista. Nenhuma escola liberal concorda com tais atrocidades. Portanto, impossível chamar Keynes de liberal.

Parafraseando Ralph Raico:

“Como observou Hutt, Keynes, em “A Teoria Geral”, deu as costas a toda autoridade reconhecida, desde Hume e Smith a Menger, Jevons e Marshall, passando por Wicksell e Wicksteed.  À parte o grau de adesão de cada um desses pensadores ao laissez-faire, estes pensadores ao menos reconheciam que, em uma economia de mercado, havia forças autocorretivas que faziam com que as eventuais depressões econômicas fossem temporárias.  Keynes, ao descartar a “ortodoxia” de seus antecessores (e contemporâneos), alinhou-se com o que ele mesmo apelidou de “corajoso exército de hereges”: Silvio Gesell, J. A. Hobson e outros social-reformistas e críticos socialistas do capitalismo, descartados como lunáticos pelos economistas mais em voga”

(Friedman 1997, p. 7)”.

Conclusão

No Brasil, a dificuldade em deixar de lado as ideias Keynesianas na economia é gigantesca, e faço essa afirmação porque é de suma importância saber que quem quer que diga que no Brasil não temos Keynesianismo, pode ser considerado um analfabeto em economia ou um completo mentiroso! Há quem diga que “não era Keynesianismo de verdade”, o que considero o novo “Não era socialismo de verdade”. Está cada vez mais claro que o termo liberal parece não significar absolutamente nada hoje em dia, é perfeitamente normal observarmos nas redes sociais páginas de sociais-democratas que se denominam liberais e exaltam pensadores como Keynes e (pasmem!) até mesmo Paul Krugman como exemplos de liberais. Como se não bastasse, criam espantalhos acerca da Escola Austríaca de Economia ou até mesmo os liberais clássicos (como por exemplo, Jean-Baptiste Say), para assim, atacar esses espantalhos como forma de “refutar” essas escolas de pensamento. 

Esse ataque constante aos verdadeiros liberais que se posicionam contra os intervencionistas não é algo novo, pois foi exatamente o que aconteceu nos EUA décadas atrás, inclusive F. Hayek nos alerta no prefácio de sua obra mais famosa, “O Caminho da Servidão”, sobre como a esquerda se apropriou do termo liberal nos Estados Unidos, fenômeno que podemos observar acontecendo aqui no Brasil, e isso fica ainda mais claro quando encontramos bizarrices nas redes sociais de supostos liberais afirmando que Ludwig von Mises não importa para o liberalismo, enquanto Paul Krugman (o economista que defendeu uma guerra allien para sair da crise) é visto como mais importante que Mises para o liberalismo.

Enquanto alguns autores da Escola Austríaca baseiam-se em Carl Menger, Ludwig von Mises, F. Hayek e outros pensadores austríacos para defender uma menor intervenção estatal, ou até mesmo a inexistência do Estado (como fazem por exemplo: Murray Rothbard, Hans-Hermann Hoppe e outros); o pós-keynesianismo e outras escolas de pensamento que baseiam-se em Keynes, usam suas ideias para defender mais intervenção estatal. Os Keynesianos dessa página “liberal” afirmam que é culpa dos pós-keynesianos a rotulação de que são adoradores do Estado. Não é estranho pensar que enquanto os pensadores modernos da Escola Austríaca de Economia são radicais opositores do Estado, os pensadores modernos do Keynesianismo são ainda mais interventores? John Keynes seria realmente liberal só porque afirmou que precisamos de livre comércio? No Brasil temos um algum nível de liberdade individual e de livre comércio, contudo, fomos presididos por ditadores na época do regime militar, por pessoas realmente de esquerda como Lula e Dilma que mantiveram o comércio de certa forma livre. Isso me obriga a encerrar com uma pergunta a esses pseudoliberais: seriam Lula, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff e Médici liberais?

Leonardo Candido de Oliveira

Leonardo Candido de Oliveira

Estudante de Ciências Econômicas, editor na página O Economista Austríaco e está escrevendo um livro com a finalidade de simplificar a economia para os mais leigos.

2 thoughts on “Keynes era Liberal?

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    20/12/2021 em 19:47
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    Não tem como deixar um comentário, teria que ler e relê por várias vezes. Nossa cabeça (mente) entra em um êxtase de prazer a leitura. Feliz no texto, na explicação e no esclarecimento. Só posso dizer; Parabéns, parabéns….
    E muito obrigada por uma leitura prazerosa.

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