Economia com o Robinson Crusoé: Poupança e Investimento

INTRODUÇÃO

Hoje daremos continuidade à série de artigos nos quais relacionamos famosas histórias com a Economia. Já temos um artigo onde demonstramos os conceitos econômicos presentes na fábula da Cigarra e da Formiga e um segundo artigo onde apresentamos os ensinamentos econômicos da famosa história dos Três Porquinhos.

Utilizaremos o famoso personagem Robinson Crusoé para explicar Poupança e Investimento.

É importante salientar que não somos os primeiros a utilizar este personagem para explicar a presente teoria. O Economista Austríaco Eugen Böhm Ritter von Bawerk (1851-1914) utilizou esse exemplo, e economistas influentes, como o professor espanhol Jesús Huerta de Soto e o economista e professor brasileiro Ubiratan Jorge Iorio também utilizaram o personagem Robinson Crusoé.*

ROBINSON CRUSOÉ EM UMA ILHA

Suponha que Robinson Crusoé esteja isolado em uma ilha e que sua alimentação basicamente consista nos peixes que pesca e na água que bebe. Mesmo com muito esforço, como Crusoé utiliza apenas as próprias mãos para pescar, é capaz de pegar apenas 3 peixes por dia.

Um belo dia, Crusoé tem a ideia de fazer uma lança para que assim possa pegar mais peixes por dia. Porém para isso, precisa primeiro procurar o material adequado na ilha e depois construir sua lança. Para realizar tal projeto ele estima que precisa gastar um dia inteiro. Entretanto, Crusoé não pode ficar um dia sem comer para fazer a lança, e como já falado Crusoé consome os exatos 3 peixes que pesca todos os dias.

POUPANÇA E INVESTIMENTO

Crusoé percebe que, se comer apenas dois peixes por dia ao invés de 3, terá ao final de dois dias uma poupança de dois peixes e assim poderá se dedicar a elaboração do seu bem de capital – a lança.

A produção de bens de capital pressupõe a existência de poupança, aqui definida como a renúncia do consumo no presente, como bem disse o professor De Soto:

“A condição sine qua non para produzir bens de capital é a poupança, entendida como a renúncia ao consumo imediato.”

Jesús Huerta de Soto

Para uma melhor compreensão vamos retornar ao exemplo do peixe economizado – ou seja, poupado – durante dois dias consecutivos por Crusoé.  Para fazer a lança – isto é, para investir – e ter um bem de capital que lhe permitirá pescar mais peixes diariamente, para isso ele tem que realizar o esforço, durante dois dias seguidos, de comer apenas dois peixes, ao invés dos três a que estava acostumado. Ou seja, a poupança aqui pressupõe o sacrifício de não consumir o Capital (no nosso exemplo os peixes) agora, essa ação é um sacrifício pois de acordo com a lei da preferência temporal “o consumo de um bem no presente é ceteris paribus preferível ao consumo da mesma quantidade do mesmo bem no futuro”. Sobre a lei da preferencia temporal, o já citado professor De Soto diz o seguinte:

“A categoria lógica da preferência temporal, que estabelece que, ceteris paribus, o ator prefere satisfazer as próprias necessidades ou atingir os objetivos o mais cedo possível.  Ou, por outras palavras, que, em face de dois objetivos a que atribui valores idênticos, o ator preferirá sempre o que demorar menos tempo.  Ou, de forma ainda mais breve, que, nas mesmas circunstâncias, os “bens presentes” são sempre preferíveis aos “bens futuros”.  Esta lei da preferência temporal não é senão outra forma de expressar o princípio essencial segundo o qual todo o ator, no processo da própria ação, pretende alcançar os fins o mais cedo possível, estando separado dos mesmos por uma série de etapas intermediárias que encerram um determinado período de tempo.”

Jesús Huerta de Soto

Veja que Crusoé, ao planejar sua ação e decidir empreendê-la, sabia previamente que precisaria poupar parte dos peixes que capturava diariamente e guardá-los, para que no terceiro dia – que dedicaria a fazer a lança e em que, portanto, não teria tempo para pescar – pudesse alimentar-se deles.

Se seus planos quanto a lança estivessem corretos, então Crusoé teria à sua disposição o bem de capital (a lança) e assim poderia melhorar seus resultados.

E SE CRUSOÉ ERRAR?

É importante ressaltar que Crusoé poderia ter cometido erros. Ele poderia, por exemplo, ter gasto apenas duas horas para fazer a lança, e assim, teria sacrificado mais do que o necessário para isso. Ou também Crusoé poderia até mesmo ter errado no sentido contrario e não ter conseguido fazer a lança em apenas um dia… Poderia ter percebido, na verdade, que seriam necessários dois dias para fazer a lança, ou seja, sua poupança não teria sido o suficiente, o que faria com que ele tivesse que passar um dia a mais sem comer para assim terminar o seu bem de capital. Neste caso, ele poderia ter optado também por abandonar o projeto no meio e voltar a usar apenas as mãos ou ainda, ele poderia escolher voltar a poupar novamente, para assim acumular peixes suficientes para investir seu tempo no termino da lança.

Como podemos ver, é perfeitamente possível que indivíduos cometam erros, ou seja, além do sacrifício de consumir menos do que produz, Crusoé também não tinha certeza de que iria obter sucesso na busca pelos seus fins.

CONCLUSÃO

Vamos deixar que o professor Ubiratan conclua nosso exemplo:

“Nas economias modernas, com milhões de agentes econômicos, em que a complexidade dos processos produtivos é muito mais sofisticada do que a do exemplo de Robinson Crusoé, o capitalista é aquele que poupa, ou seja, consome menos do que cria ou produz, liberando dessa forma recursos para os estágios mais afastados da estrutura de produção, isto é, para a produção de bens de capital.”

(IORIO, 2011, p.108)

NOTA:

*O professor de Soto utilizou o exemplo com Crusoé colhendo amoras. Este exemplo pode ser encontrado na obra Moeda, Crédito bancário e Ciclos Econômicos. Já o professor Ubiratan utilizou o exemplo  dos peixes, que pode ser encontrado nas páginas 103, 107 e 108 da primeira edição do livro Ação, Tempo e Conhecimento. Nosso artigo será inspirado no exemplo do professor Ubiratan Jorge Iorio. Portanto, os créditos pelo exemplo são todos dele, mas obviamente, quaisquer possíveis equívocos que eu venha a cometer são de minha responsabilidade.

REFERÊNCIAS:

DE SOTO, Jesús Huerta (2010): A Escola Austríaca: mercado e criatividade empresarial /Jesus Huerta de Soto. — São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil. Tradução: André Azevedo Alves

DE SOTO, Jesús Huerta (2012): Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos / Jesús Huerta de Soto ; tradução de Márcia Xavier de Brito. – São Paulo : Instituto Ludwig von Mises. Brasil, 2012. 736 p.

IORIO, Ubiratan Jorge (2011). Ação, tempo e conhecimento: A Escola Austríaca de economia / Ubiratan Jorge Iorio. — São Paulo : Instituto Ludwig von Mises. Brasil, 2011. 234p

Gabriel Almeida Braga

Gabriel Almeida Braga

Escritor, estudante de Ciências Econômicas, gosta principalmente de Microeconomia e da História do Pensamento Econômico (HPE), graduando em Administração de Empresas, cofundador da Apptime, fundador da iniciativa Economia para Iniciantes e editor-chefe do site Econotime.

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