A LEI DE SAY E O EQUÍVOCO DE KEYNES

INTRODUÇÃO

Desde a publicação do General Theory of Employment, Interest and Money do excêntrico economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946) em 1936, onde este teceu suas concepções polêmicas sobre a ciência econômica no geral e, em particular, sobre a Lei dos Mercados do economista francês Jean-Baptiste Say (1767-1832), conhecida simplesmente como a Lei de Say, até hoje há discussões econômicas sobre a validade da lei exposta por Say em seu tratado de 1803.

LORD KEYNES E A LEI DE SAY

A interpretação de Keynes à lei de say, no entanto, é, no mínimo, grosseira. Ele infere que Say afirmava que a oferta de produtos implicaria em uma demanda automaticamente por ela, ou seja, que a oferta cria sua demanda, acusando assim a economia clássica de se basear em tal interpretação. Ora, se para todo produto há uma demanda por ele, ceteris paribus, não haveria necessidade de se preocupar com recessão e desemprego.

Porém, a intenção aqui não é entrar em mérito sobre o keynesianismo (coisa que já fiz neste artigo), mas elucidar o que eu concebo ser o correto entendimento da lei dos mercado elucidada por Say. Acredito que não há forma melhor de começar senão pelas próprias palavras do mesmo. No capítulo XV do seu Treatise of Political Economy, ele diz:

“Um homem que aplica seu trabalho ao investimento de objetos com valor para a criação de alguma utilidade, não pode esperar que tal valor seja apreciado e pago, a menos que outros homens tenham os meios de comprá-lo. Agora, em que consistem esses meios? De outros valores de outros produtos, assim como os frutos da indústria, capital e terra. O que nos leva a uma conclusão que à primeira vista pode parecer paradoxal, a saber, que é a produção que abre a demanda por produtos.”

O que Say está dizendo nesta parte é, primeiro, que as trocas interpessoais são, na verdade, uma troca de valores. Seja numa economia monetária ou no escambo, no curso de uma troca, valores são trocados a partir de meios que expressamos (bens e/ou dinheiro); e, segundo, que a produção é o que torna possível a demanda por produtos, dado que a motivação de um produtor (a menos que este produza para si mesmo) ao produzir utilidade para terceiros, faz isto para adquirir outros bens do seu interesse, criando potenciais relações mercadológicas.

O autor também esboça certos aspectos de uma teoria monetária e, desta maneira, demonstra que dinheiro é apenas uma forma de mediar os valores e efetivar as trocas. Ninguém demanda dinheiro per se, pois nada pode-se fazer com ele além de realizar trocas. A demanda por dinheiro é, ipso facto, uma demanda por seu poder de compra, i.e, pelo quanto de bens você pode adquirir com ele. Say advoga tal ponto no que se segue:

“Você diz que quer dinheiro; eu digo, você quer outras mercadorias, e não dinheiro. Para que, na verdade, você quer o dinheiro? Não é para comprar matéria-prima ou estoque para seu comércio, ou mantimentos para seu sustento? Portanto, são produtos que você quer, e não dinheiro.”

E completa dizendo que

“Se você não consegue encontrar uma venda pronta para sua mercadoria, você dirá que é apenas por falta de um veículo para transportá-la? Pois, afinal, o dinheiro nada mais é que o veículo de transferência de valores.”

Enfatizando o caráter singular da utilidade e demanda por dinheiro, a saber, que tal entidade serve unicamente como meio de troca. Discussões estas que Adam Smith já havia empreendido antes de Say, refutando a crença da sua época de que crises eram advindas por pouca oferta de dinheiro. Neste sentido, a quantidade corrente de dinheiro em circulação (ignorando a ocorrência de políticas monetárias), não modifica os valores dos bens, apenas demonstra-os; da mesma forma que um aumento na oferta de dinheiro não cria demanda por bens.

A quantidade de dinheiro é suficiente para regularizar os valores e as trocas no mercado. Say acaba, mesmo que indiretamente, demonstrando o caráter subjetivo do valor, pois as pessoas só irão comprar o que subjetivamente avaliam como necessário, já que as trocas no mercado são trocas de valores. E aqui podemos adiantar a parte central da lei exposta no capítulo XV:

“Vale a pena observar que um produto, tão logo seja criado, a partir desse instante, oferece um mercado para outros produtos em toda a extensão de seu próprio valor. Quando o produtor tiver em mãos o seu produto finalizado, ele estará ansioso para vendê-lo imediatamente, para que seu valor não diminua em suas mãos. E tampouco estará menos ansioso para aplicar o dinheiro da sua venda; pois o valor do dinheiro é igualmente perecível. Mas a única maneira de se livrar do dinheiro é comprando um produto ou outro. Assim, a mera circunstância da criação de um produto abre imediatamente um mercado para outros produtos.”

Acredito que esta seja a parte em que Keynes carecia de atenção intelectual. Muito provavelmente ele leu as partes onde Say diz que “a produção abre um mercado para outros produtos” e interpretou como “a produção de um produto abre (ou cria) uma demanda por ele.”

A VERDADEIRA LEI DE SAY

Mais uma vez, de forma alguma Say está afirmando, ou sequer pressupondo, que a oferta cria uma demanda por ela, que a produção criará compradores automaticamente. O que Say está dizendo, na verdade, é basicamente um truísmo simples; a saber, que a criação de uma mercadoria propicia um mercado, ou seja, engendra a possibilidade daquela mercadoria ser negociada por outros produtos.

Pois ao efetivar a produção de um bem e dada a alta preferência temporal dos agentes e a expectativa de depreciação do poder de compra da moeda, o homem procura outros produtores/compradores para vender seu bem e já aplicar o dinheiro em algum fator produtivo ou bem de consumo. Tudo isto fomenta potenciais mercados para o produto fabricado, em função dos produtos que podem ser trocados por ele. Por conseguinte, o que pode ser entendido de tudo que foi exposto até agora é que, em última instância, os bens são trocados por outros bens, já que a moeda é demandada apenas como meio para conseguir outros bens.

Em termos práticos:

Suponha que Luna colheu ervas medicinais e procura vendê-las para comprar um quadro. A produção da Luna poderia tornar propício para, por exemplo, Gustavo, que produz os quadros que ela deseja e se ele desejar as ervas medicinais colhidas, para que ambos realizem uma possível relação de troca. Ou seja, não é que Gustavo irá demandar as ervas de Luna automaticamente, mas a produção de Luna poderá abrir um mercado entre os dois produtores e a possibilidade de Gustavo desejar a produção da mesma.

Por conseguinte, somos capazes de concluir que a produção é (e a lei de Say infere da mesma forma) uma relação especulativa. Em outras palavras, a produção de uma mercadoria de um produtor, cria mercados para outros produtores, da mesma forma que, como diz Say, um produto abre um mercado para outros produtos. Ou, simplesmente, que as pessoas produzem o que pressupõe que outras pessoas querem, na expectativa de que estas estejam produzindo o que esperam que produzirão em troca.

Em suma, (i) o valor dos bens e serviços que alguém pode comprar é igual ao valor de mercado do que elas ofertam, logo (ii) no mercado, os bens são trocados, em última instância, por outros bens e (iii) a oferta de um bem torna capaz uma formação mercadológica para ele visto que (iv) o ato da criação de mercadoria possui como intenção final, o ato consumir, ou, simplesmente, que a produção precede o consumo.

Não há nada até aqui exposto que demonstre algo do tipo “a oferta cria sua procura”. Keynes não só interpreta a lei de Say dessa forma como acusa o economista francês e a escola clássica de ignorar a possibilidade de haver recessões, já que sempre haverá demanda por produtos invariavelmente. No entanto, parece que o caro Lord Keynes não leu algumas linhas depois da última citação de Say aqui exposta, quando o próprio fala sobre a possibilidade de recursos ociosos e superprodução de bens.

“Mas pode-se perguntar… por que às vezes há uma abundância tão grande de produtos no mercado e tanta dificuldade em encontrar uma válvula de escape para elas? Por que uma dessas mercadorias superabundantes não pode ser trocada por outra? Eu respondo que o excesso de uma determinada mercadoria surge por ter superado a demanda total por ela de uma ou duas maneiras; ou porque foi produzido em abundância excessiva, ou porque a produção de outras mercadorias ficou aquém.”

Ou seja, a falta de demanda por produtos não denota a invalidação da Lei de Say, mas, pelo contrário, a confirma; pois entende-se que um bem, dado fatores subjetivos, possui uma demanda limitada ou inelástica. Produziu-se em excesso um bem Y, quando, na verdade, as curvas da demanda estavam tensionadas para o bem X. Ou seja, não é por algo tal como uma deficiência na demanda agregada, em termos keynesianos, mas uma má logística especulativa dos ofertantes. O próprio autor confirma assim na citação seguinte. Tais erros para o lado da oferta acontecem porque…

“… a produção de algumas mercadorias diminuiu, ao passo em que outras são superabundantes. Para usar uma frase mais banal, as pessoas compraram menos, porque lucraram menos; eles tiveram menos lucro por uma ou duas causas: ou eles encontraram dificuldades no emprego de seus meios produtivos, ou esses meios foram deficientes.”

E continua:

“É observável, aliás, que precisamente, ao mesmo tempo em que uma mercadoria dá prejuízo, outra mercadoria está tendo lucro excessivo.”

O autor praticamente elucidou um conceito austríaco básico; que as oscilações do mercados acontecem por certas inconstâncias não previstas, ou seja, por mudanças variadas, causadas por fatores dinâmicos, subjetivos e tácitos, além da não uniformidade do conhecimento sobre todas as informações de mercado. Portanto, lucros e prejuízos seriam, justamente, formas de desequilíbrio de mercado e desequilíbrio nas curvas da oferta e da demanda.

A tarefa de Say nesta parte do seu tratado, tal como fez Smith, foi justamente refutar uma outra crença presente na sua época: de que crises aconteciam por causa de uma superprodução. Dado que o mercado é um processo dinâmico e que desemboca em forças oscilantes e dado que a intenção em produzir um bem é a criação de um mercado entre ele e outros bens, acreditar que uma superprodução normalmente aconteceria de forma geral, não faz sentido.

Say admitia a existência de uma superprodução relativa, ou seja, de alguns bens cuja produção excedeu a sua demanda, não uma superprodução geral, onde todos os recursos ficam ociosos por não encontrarem compradores. A oferta de um bem constitui a demanda por outro; logo, uma superprodução não é – normalmente – um fenômeno geral, mas de alguns casos.

Como a demanda implica em oferta, a demanda por todos os bens no mercado, consiste justamente em todas as ofertas existentes para estes bens, i.e, a demanda agregada é inteiramente igual à oferta agregada. Consequentemente, toda oferta de bens é direcionada à demanda. Mesmo que alguns bens não encontrem imediatamente uma demanda por eles, não significa que toda a oferta agregada de bens não terá demanda alguma. Logo, não há como haver uma crise por superprodução logicamente, dado o caráter bastante específico da produção.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, o que pode-se entender de tudo que fora revelado aqui é:

  1. O comércio é uma troca de valores; o mercado é onde há a formação de valores e onde eles são expressos, por exemplo, em termos monetários. Logo, o valor de mercado de algo que um indivíduo deseja comprar, é igual ao valor de mercado do que ele oferece em troca.
  2. Dinheiro é uma representação desses valores, não os valores em si e nem tem valor per se. Seu valor é lastreado pela quantidade de bens existentes. Então, é correto dizer que os bens, em última instância, são trocados por outros bens, com o dinheiro sendo um mero mecanismo de transferência desses valores.
  3. A criação de um produto promove um mercado para ele. Isto não significa que ele adquire automaticamente uma demanda, mas sim uma potencial relação mercadológica em razão de outros produtos que podem ser trocados, dado que o homem produz na intenção de que terceiros apreciem sua produção e, em troca, possam ofertar outros produtos.
  4. Isto tudo permite-nos concluir que a produção é uma construção específica de valores a serem trocados no mercado, sendo sempre direcionada a demanda, já que só se produz a fim de consumir. Portanto, não há como haver uma superprodução generalizada, só uma superprodução relativa de bens que já superaram o limite de sua demanda, o que é facilmente corrigido pelo sistema de preços.

É isto e nada mais o que afirma a Lei de Say, sendo esta real até hoje.

REFERÊNCIAS:

SAY, J. Tratado de Economia Política. Tradução de Balthazar Barbosa Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

Victor Daniel

Victor Daniel

Escritor, estudante e assíduo nos estudos de Economia, Filosofia e Sociologia

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